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Entre o teto do mundo e as montanhas celestiais: uma entrevista com Waldemar Niclevicz sobre a escalada do Pico Lenin, no montanhoso Quirguistão

Em meados dos anos 1950 um grupo de montanhistas russos criou um desafio que consistia em escalar todas as montanhas da antiga União Soviética acima de 7 mil metros de altitude, entre elas, o Pico Lenin. O desafio ganhou o nome de Leopardo das Neves, e mesmo após o fim da União Soviética, alpinistas de todo o mundo visitam o local para viver a experiência de escalar alguns dos picos mais desafiadores da Terra.

Em 2009, o brasileiro Waldemar Niclevicz, montanhista com algumas das montanhas mais altas e difíceis do mundo no currículo – já escalou o Everest e o K2 – partiu para a conquista do Pico Lenin ao lado do amigo Irivan Gustavo Burda. Só a viagem até o Quirguistão, país onde fica o Lenin, já foi uma aventura! “Saímos do Brasil rumo a Amsterdã, passamos pelo Kazaquistão e chegamos à capital do Quirguistão, de onde pegamos um voo até a cidade de Osh, próxima ao acesso do Lenin. De lá foram mais 10 horas de carro até a base da montanha”, conta Waldemar.

A 3.500 metros de altitude fica o acampamento base do Pico Lenin. E foi de lá que Waldemar partiu em direção ao acampamento 1, com neve até os joelhos, mas contemplando uma paisagem surpreendente. “Ficamos encantados com a beleza e com a imponência do Lenin”, relembra Waldemar. Mas toda a exuberância do Lenin aos poucos foi revelando a força da natureza ao seu redor. “Durante a subida enfrentamos nevascas muito fortes praticamente todos os dias. Mesmo assim, conseguimos chegar ao acampamento 3, a 6.100 metros de altitude, com neve até a cintura, literalmente”,  conta o alpinista.

Todo o empenho de Waldemar e Irivan não foram suficientes para conquistar o cume do Lenin na primeira tentativa. A neve, a pouca visibilidade e o vento sem trégua, tornaram impossível realizar a última parte da subida. Desta vez, os brasileiros tiveram que voltar ao acampamento base. Mas por insistência da equipe, que acreditava no potencial da dupla, uma segunda tentativa foi realizada, dessa vez com sucesso! “No dia 19 de julho, às 14h15, fincamos pela primeira vez a bandeira brasileira no topo do Pico Lenin, a 7.134m de altitude”, recorda o montanhista.

Segundo Waldemar, o Pico Lenin é uma montanha relativamente acessível quando se respeita o período propício para a escalada, que geralmente vai do meio de julho até o meio de agosto. O atleta conta que os principais desafios dessa aventura foram a grande quantidade de neve e o vento gelado entre o acampamento 3 e o cume. O trecho mais perigoso é apelidado de “knife” – faca, em inglês – a 6.500 metros de altitude, onde o caminho rumo ao topo fica muito estreito e há um despenhadeiro do lado. Waldemar recomenda que sejam usadas cordas nesse trecho, principalmente para quem não tem muita técnica ou experiência nesse tipo de montanha.

Para Waldemar, a parte mais gratificante é deixar a marca do Brasil de forma tão positiva! “Fomos chamados na expedição como ‘os fortes e determinados brasileiros’. Ficamos muito felizes em deixar uma impressão tão boa do nosso país”, comemora o atleta.


Vai lá

No Quirguistão é extremamente difícil achar alguém que fale inglês e que possa orientar corretamente os visitantes no acesso ao Pico Lenin. Por isso é fundamental a ajuda das agências de turismo especializadas em aventura para levar os alpinistas com segurança à montanha e prover todo o suporte necessário à escalada. De acordo com Waldemar Niclevicz, uma assessoria especializada nesse tipo de serviço sai em torno de $ 750 euros por pessoa.