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LO MEJOR DEL FITZ

Relato da Temporada Marumbina na Patagônia 2008, por NativO!

Foi muito proveitosa a viagem! Partimos no dia 23 de dezembro de 2007 de Curitiba (PA), em um grupo formado por mim, minha companheira, Simone, Camarão, vulgo Anderson Bulgakov e sua companheira Elisa Costa. Nossa nave, uma Toyota Bandeirantes, batizada de Papa-Léguas, contava com larga experiência, uma vez que era a sétima vez que estava indo para os Andes.

Dormimos em um posto de gasolina no Rio Grande do Sul e em outro na província de Entre Rios, já na Argentina, e chegamos no dia 25 a Los Gigantes, próximo a Córdoba, onde, entre uma chuva e outra, escalamos algumas vias no Cerro de La Cruz e outras torres de granito da região.

Batizamos esta primeira etapa da expedição de Pelos Anders, em homenagem ao casal Ander e Elisa que não deixavam de sorrir com o visual da maravilhosa cordilheira dos Andes.

De Los Gigantes, seguimos por uma rota por cima da serra, passando por Vila Dolores e fomos para Mendoza fazer a cabeça no Cerro Plata, região de Vallecitos. Eu e Simone chegamos a 4.500 msnm; o Camarão e Elisa, mais empolgados com a altitude, foram até o cume, 6.200 msnm. Precisávamos mais alguns dias, mas estávamos ansiosos em chegar logo a Bariloche e escalar rocha. Na verdade, nos enjoamos de tanta gente, cavalos, lixo, cocô, papel higiênico voando, e tudo mais que as altas montanhas próximas ao Aconcágua oferecem. A idéia era a Simone conhecer a altitude. Ela conheceu e não gostou.

Do Cerro Plata, passamos por San Rafael, onde dormimos em um camping, em direção ao sul pela rota 40. Seguimos, então, para Junin tentar o Vulcão Lanin; mais um dia passando por San Martin de Los Andes e Vale Encantado, e finalmente chegamos a Bariloche no dia 10 de janeiro. Arrumamos as mochilas, compramos os mantimentos que faltavam e fomos para as agulhas de Cerro Catedral. Aí sim, a diversão começou.

FitzTivemos muitos dias de tempo bom; foi a melhor temporada de todos os tempos. Escalamos todos os dias, sendo que em alguns fizemos dois a três cumes, sendo que chegamos a fazer quatro cumes em um único dia. Claro que levantando bem cedo e voltando bem tarde e com o pensamento no objetivo da viagem que era tentar o Fitz pelo Pilar do Casarotto. Desde que o Bonga (vulgo Marcelo Santos) me convidou no início de 2007, condicionei a minha ida a passar por Pilar.

A primeira reserva de comida acabou e baixamos a Bariloche repor os mantimentos. Voltamos a escalar; Camarão e Elisa foram para o Tronador. Escalamos com Tiaraju Fialho, que junto com Alexandra, estava extasiado com a primeira temporada na Patagônia, e com Sassá, vulgo Alexandre Lorenzetto.

No dia 4 de fevereiro fizemos uma troca de casais, agora com o Bonga e a Gabi. Seguimos rumo ao sul em direção a Chalten, com o pensamento fixo no Pilar. Desse momento em diante batizamos a expedição de os Escalafáticos.

Chegando a Chalten nos instalamos no acampamento Madsen e aproveitamos para saber das novidades com os amigos que já estavam por ali;aproveitamos para conversar com Rolando Gariboti (o Rolo), que já conhecia de outras temporadas. Nada melhor do que saber dos locais como andam as coisas. Ele havia descido do cume do Fitz na noite anterior e fizeram o que chamaram de La Espiral do Fitz: entrando pelo vale do Cerro Torre, subiram filo do Hombre Sentado e culminaram pela Afanascief.

FitzEra o último dia de uma janela de bom tempo de nove dias e, entre um mate e outro, comentamos sobre as nossas intenções, mas Gariboti nos convenceu a entrar no Pilar pela face oeste, por conta da pouca neve e pedras soltas que predominavam nas faces leste. Disse que havia aberto uma via nova, no dia 15 de janeiro, juntamente com Poroto (Been), e que segundo eles era "lo mejor del Fitz", puras fissuras, tudo limpo nada fixo na parede e o crux de 6b (francês), que batizaram de Mate, Porro e Todo lo demas. Vendo as fotos percebemos que era isso mesmo que queríamos, apesar do mau tempo e sem previsões de melhora, fizemos nossa estratégia e fomos arrumar as mochilas, com o mínimo de equipamento e comida para seis dias; o plano era tentar no melhor estilo alpino-patagônico, Chalten Chalten.

Esperamos por 12 dias, fazendo boulder, pescando truta, andando de slak-line, assistindo as seções de filme que todos os dias acontecem às 15 horas na administração do parque, comendo facturas e aumentando as reservas de energia. Quando a previsão melhorou, ou melhor, a previsão era que iria melhorar, partimos com o tempo ruim mesmo, subindo pela margem do Rio Elétrico, pela trilha que leva à estância Piedra del Fraile. No primeiro dia chegamos a um bivaque nas pedras, pouco antes da Piedra Negra, que leva ao Passo do Quadrado.

No segundo dia de investida estávamos desanimados pelos ventos e o mau tempo que não acalmava, quando no meio do pesto, olhando para as paredes, já havíamos decidido entrar na Guillaumet, apenas com a intenção de testar se conseguiríamos escalar com aquele vento. Nesse momento, aparecem o Rolo e o Colin, mesmo companheiro com o qual haviam escalado juntos o grande tour do Torre, que em termos mundiais talvez tenha sido o feito mais importante da temporada. Escalaram a Punta Standhard, Punta Herron, Punta Eger e o Torre em 72 horas e, dias depois, fizeram La Espiral do Fitz. Agora os planos eram entrar na Guillaumet, depois Mermoz, ValdeBois, Pilar e Fitz. Rolo disse com toda convicção que certamente o tempo melhoraria e nos convenceu a retomar nosso plano. Combinamos de nos encontrarmos no colo entre o Pilar e o Fitz ou na terraça que havia no trecho final do pilar.

FitzDecisão tomada, levamos cerca de quatro horas seguindo pelo Passo do Quadrado, cruzando as rampas de rocha e o Glaciar bem complicado nas encostas da Guillaumet e Mermoz. Chegamos à base, onde após um tempo de procura por um local plano, montamos um bivaque batizado de Base de Lançamento.

Seguindo as dicas do Rolo, programamos o despertador para as 5h, para subir os 500 metros de desnível de gelo (cerca de 700 de escalada, tuc tuc tuc, segundo ele), de forma a chegar à base às 8h e começar a escalar. O vento era incessante e cada rajada era como um jato a decolar, conosco bem na cabeceira da pista. Escutávamos outros "jatos" ao longe, que vinham e aterrissavam, sacudindo-nos.

Não escutamos o despertador, o primeiro diálogo do dia foi o Bonga perguntando: Que horas são? Respondi: Não sei, o relógio está aí fora. Bonga retruca: Isso é reposta? Saímos dos sacos de bivaque às 8h, meio desanimados e pensamos: "já que estamos, vamos tentar, ver até onde dá, qualquer coisa descemos".

Após alimentar-nos, saímos às 10h da base de lançamento, depois de muito tuc tuc, às 14 h estávamos na base da parede; percebemos que os tempos e os tucs do Rolo eram bem diferentes dos nossos. A tática era cada um guiar cinco enfiadas, o primeiro guiaria, fixando a corda e o segundo só no Gilmar.

Deixamos uma piqueta e um par de crampom na base da primeira enfiada. Levamos apenas a piqueta com marreta, para rebater os grampos de fenda na descida e o par de crampom de alumínio. Nos nossos cálculos de enfiadas, cairia para o Bonga justamente o trecho final de misto para chegar ao cume do Fitz e eu, sem crampom e sem piqueta, subiria pela corda fixa.

Bonga iniciou na frente e após as primeiras cinco enfiadas, percebemos que estava ficando tarde. Fazer a troca do guia, colocar sapatilha e tudo o necessário nos demoraria ainda mais, por isso continuamos assim para tentar chegar à tal terraça, onde daria para bivacar. Bonga guiou mais umas três enfiadas; perdemos-nos nas contas. Ao escurecer, chegamos a um platô bem abaixo da terraça, na base do crux.

FitzResolvemos bivacar ali mesmo, antes do anoitecer, e por sorte conseguimos descansar, deu até pra dormir um pouco, talvez pelo cansaço.

No outro dia, nem bem clareou, já estávamos derretendo neve. Fizemos água, bebemos e comemos algo e fui, em livre até onde deu, mãos frias e com pouca sensibilidade, fiz no melhor estilo livre, livre para se agarrar no que puder.

Foram mais umas seis cordadas para chegar à tal terraça. Como no primeiro dia só o Bonga tinha se divertido, pois sobra para o segundo "jumarear" com a mochila mais pesada, continuei guiando. Mais umas seis enfiadas e chegamos ao cume do Pilar, já precisando de lanternas e com o vento uivando.

Precisávamos fazer dois rapeis no escuro para chegar ao colo; por sorte uma luz nos guiou para o outro lado e, exatamente na ponta norte do cume, tinha um platô de 2 x 3, que, com um bom trabalho com a piqueta, retiramos o gelo, armamos um varal para ficar tudo auto-assegurado, estendemos as cordas tipo tapete, isolantes, derretemos mais neve para fazer água, comemos algo e entramos nos sacos de bivaque com toda a roupa que tínhamos e sem tirar as botas.

Apreciar as luzes de Chalten era emocionante; não consegui dormir pela alegria de estar onde estávamos, vento forte sacudindo a gente, o friozinho na barriga aumentando, decidimos que, se o dia amanhecesse com bom clima, faríamos as quatro últimas cordadas e iríamos até o cume do Fitz.

Amanheceu cabuloso, um teto alto de cirrus e "naves mães", cúmulos cobrindo o glaciar formando um mar de nuvens. Nuvens formando-se nas costas do Fitz e passando em alta velocidade abaixo da gente. Decidimos descer o quanto antes, já imaginando o perrengue para rapelar a via do Casarotto, que descobrimos chamar-se Pilar Goretta, uma homenagem à sua esposa, que ficou 10 dias na base enquanto ele abria a via em solitário.

Derretemos gelo, comemos algo mesmo sem fome e começamos a descer. Após dois rapeis ficamos protegidos do vento; na metade da parede, o vento diminuiu e as nuvens foram se dissipando, até que um céu azul firmou e nos lembramos dos planos: descer com bom tempo.

Depois de rapelar o dia inteiro, passando pelo famoso bloco empotrado, (entalado) -- onde inicia a parte de rocha da via do Casarotto, onde ele armou um bivaque para ele e a Goretta -- estávamos na base de lançamento no fim do dia, com mais equipamento do que subimos. Fizemos uma boa limpeza e aumentamos nosso rack, felizes da vida pelo que havíamos realizado. Comemoramos com abraços e choros. No cume foi só um aperto de mão e um valeu, do tipo: vamos se proteger.

Mais uma noite no bivaque da base de lançamento; nesta noite, os jatos diminuíram e saímos no outro dia bem cedo, depois de comer o restante de polenta que sobrou, misturado com o resto de granola, mais o resto de farelo de bolacha. Queríamos cruzar o glaciar o mais cedo possível, mais consistente.

Mais ou menos às 15h estávamos no carro (perdemos o relógio) e às 16h estávamos em Chalten, onde nossas donzelas, a quem dedicamos a escalada, esperavam-nos com uma super refeição. Não tínhamos fome, engolíamos o choro de alegria, pois sabíamos que tínhamos feito algo GRANDE.

FitzA primeira repetição da via mais moderna, mais limpa e mais linda de todo Chalten. Batizamos o bivaque do cume de "platô da Robertinha" pelo espírito presente na escalada, cuidando da gente, desenroscando a corda no rapel, desviando das pedras que sempre caem na rampa de acesso à parede e pela sua motivação.

Comemorações à parte, fomos agradecer ao Rolo e ao Poroto pela via, pelas dicas e ver se ele reconhecia alguns dos equipamentos que retiramos da parede durante os rapeis. Depois fomos passear, visitar o Glaciar Perito Moreno em Calafate, de lá fomos para Punta Arenas visitar amigos e na volta passamos pela península Valdez ver os Pingüins, Lobos e Elefantes marinhos. Três dias, depois estávamos em casa, cansados e muuuuuito felizes.

Táticas empregadas para subir com mais velocidade: Menos é mais; na dúvida, toca para cima e se ficar difícil sobe os pés. O primeiro sobe com mochila leve, fixa a corda; o segundo "jumareia" com a mochila pesada.

Equipamento utilizado:
    . Mochila Equinox Kihú 40 lts;
    . 1 bastão de caminhada cada um;
    . 1 piqueta cada um, 1 com marreta outro com pá;
    . Par de crampons, 1 de aço outro de alumínio;
    . Bota SNAKE Coroá para crampons
    . Sapatilha SNAKE invernal, protótipo;
    . Roupas: Calça, blusa e toca (balaclava) de primeira pele;
        Calça, Blusa e toca de Fleece;
        Polar wind stoper;
        Cobre calça impermeável;
        Anoraque leve Quechua;
    . Luvas: 1 de primeira pele, 1 fleece, 1 de polar 2 dedos com sobre removível, 1 impermeável;
    . 1 saco de dormir de fleece, Nativo;
    . 1 saco de dormir 5° ferrino, Bonga;
    . 1 saco de bivaque para parede por cada;
    . ½ isolante;
    . Escalada: Cadeirinha Bod Harnes BD;
        1 jogo stopers do 1 ao 8;
        1 jogo micro friends 3 peças;
        2 jogos Camalots do 0,5 ao 3; mais 1 - 4; 1 - 4,5 e 1 - 5;
        10 expressas curtas;
        10 expressas longas 60 cm;
        3 fitas longas 120 cm para paradas;
        3 mosquetões com trava para paradas;
    . 1 par de ascensor;
    . 1 par de pedaleiras fabricadas no Madsen com o que tínhamos;
    . 1 freio ATC para assegurar o guia e rapelar;
    . 1 freio Gigi para assegurar de cima e rapelar;
    . 1 elo de cordelete de rapel com mosquetão simples key look, por cada;
    . 1 elo de cordelete de 60 cm para emergências, por cada;
    . 3 elos de cordeletes de 60 cm para abandono;
    . 2 exentrics n° 8 para abandono;
    . 1 Saco de magnésio;
    . 1 corda 1, 60 metros;
    . 1 corda ½ 60 metros;

Diversos: Toldinho leve de 2 / 2,40 m;
    2 cantis nalgene;
    1 cantil de pet 500 ml;
    2 canecas térmicas com tampa;
    2 colheres pláticas;
    2 lanternas tica plus com pilha reserva;
    1 micro canivete para cortar cordeletes abandonados;
    1 fogareiro portátil focus;
    1 carga de gás 200 g;
    1 panela de inox 1 litro com tampa;

Alimentação: 2 sanduiches , pão com queijo e tomate seco;
    500 g de polenta;
    6 barras de chocolate;
    4 pacotes 200 g macarrão instantâneo;
    4 sopas instantâneas;
    4 sucos;
    2 latas de atum;
    200 g de azeitonas;
    1 pacote de bolacha salgada;
    1 pacote de bolacha doce;
    200 g de uva passa;
    300 g de castanhas;
    6 doces de amendoim;
    300 g de granola;
    200 g de preparado de leite e chocolate em pó;

Levamos e não usamos:
     3 grampos de gelo;
    Luvinha de esparadrapo;
    1 saco de magnésio;

Agradecimentos: à By pelas roupas, Equinox pelas mochilas, Snake pelas botas e sapatilhas, ao Rolo e Poroto pelas dicas, ao Ricardo Schen que emprestou o Camalot 4,5, ao Marius Bagnati que emprestou o Camalot 5, às meninas que fizeram os sanduíches e ficaram na assistência técnica.


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